domingo, 20 de maio de 2012

A ODISSÉIA DOS QUADRINHOS BRASILEIROS

A ODISSÉIA DOS QUADRINHOS BRASILEIROS: HERÓIS E SUPER-HERÓIS
Márcio Costa: (falecido em 15.05.2006)
Por mim, sempre detestei coisas obrigatórias. Se começamos obrigando a publicar, depois teremos que criar uma lei obrigando a comprar, outra obrigando a ler, e assim por diante! Sempre achei que a qualidade se impõe naturalmente. Mas quando não há qualidade, bem, então precisamos de lei.” (Informativo Q.I., 2005, editor Edgard Guimarães)

Introdução
Nas minhas infância e juventude, confesso, fui leitor casual das HQs brasileiras, por isso, não me considero autoridade no assunto. Mas ao tomar conhecimento da luta de roteiristas e desenhistas pela inclusão da HQ nacional no mercado de trabalho; da qualidade de nossos artistas de antes e de agora; do engajamento de pessoas inteligentes como José Magnago, Edgard Guimarães, José Salles, Watson Portela e muitos outros na luta pela sobrevivência dos quadrinhos brasileiros, decidi utilizar  o blog PORTAL para fazer breve reflexão sobre ela.


Primórdios
Diz-se, a primeira HQ publicada no Brasil (São Paulo, 1867), teve como autor Ângelo Agostini (1843-1910), italiano educado em Paris, que veio para São Paulo quando sua mãe, uma cantora de ópera, decidiu mudar-se para cá. “Ele é uma das figuras mais importantes nessa área no Brasil, e os europeus e americanos o consideram um dos primeiros do mundo a fazer histórias ilustradas”. (Moya).

Ivan Carlo Andrade de Oliveira, Mestre em Comunicação Científica e Tecnológica pela Universidade Metodista de São Paulo. Professor do Instituto Macapaense de Ensino Superior – Immes – e da Faculdade de Macapá – Fama, completa:

Ao folhear qualquer livro sobre histórias em quadrinhos – mesmo os escritos no Brasil – o leitor encontrará a informação de que a primeira HQ foi Yellow Kid, de Richard Outcoult”. Nada mais falso. Antes do Menino Amarelo havia arte seqüencial sendo publicada na Alemanha, na França e outros países. Na verdade, os americanos, como fizeram com o avião, se aproveitaram do domínio que têm sobre a mídia para propagar o seu ponto de vista. O lançamento de As Aventuras de Nhô-Quim e Zé Caipora pelo Senado Federal, em uma edição organizada pelo Coronel e estudioso Athos Eichler Cardoso, mostra que os norte-americanos não podem reinvidicar sequer o mérito de terem criado os quadrinhos de aventura".

Ângelo Agostini 1


Zé Caipora

Nhô-Quim e Zé Caipora são criações do ítalo-brasileiro Ângelo Agostini, um dos jornalistas e ilustradores mais importantes da imprensa brasileira. Agostini nasceu em Verceli, na Itália, passou a adolescência em Paris, onde estudou na Escola de Belas Artes. Veio para o Brasil ainda jovem e não quis mais voltar para a Europa. Aqui ele se tornou um símbolo da imprensa republicana e abolicionista. A Revista Ilustrada, fundada e dirigida por ele, era o periódico de maior prestígio no Brasil do final do século XIX, sendo o principal registro histórico e iconográfico da luta contra a escravidão. A publicação chegou a ter quatro mil assinantes, o que era um recorde absoluto para um país cuja maioria da população era analfabeta.


O primeiro trabalho de Agostini com quadrinhos foi As Aventuras de Nhô-Quim. O primeiro capítulo foi publicado em 30 de janeiro de 1869, no jornal Vida Fluminense. A data, que revela claramente que somos muito anteriores aos norte-americanos (Yellow Kid é de 1896) hoje é comemorada como dia do quadrinho nacional. Ângelo Agostini deu nome ao mais importante troféu brasileiro de quadrinhos.


Nhô-Quim contava a história de um caipira rico e ingênuo, que vai à corte e se envolve em todo tipo de trapalhadas. A história mostrava o conflito entre a cultura rural e urbana, o que fica evidenciado na seqüência em que Nhô para para tomar um café e acaba perdendo o trem. Agostini usa a história do caipira para criticar os problemas urbanos, modismos e costumes sociais e políticos da época.

Mas o melhor momento de Agostini é mesmo Zé Caipora. Obra de um artista maduro, a série antecipa os quadrinhos de aventura que tanto fizeram famosos personagens como Tarzan e Flash Gordon. O primeiro capítulo de Zé Caipora foi publicado em 27 de janeiro de 1883 nas páginas da Revista Ilustrada - sempre é bom lembrar que Yellow Kid é de 1893 - dez (10) anos antes. O sucesso foi tão grande que a série chegou a ter quatro edições e serviu de inspiração para uma canção popular, peças teatrais e até dois filmes mudos. Zé Caipora era multimídia.


Os primeiros capítulos são ainda humorísticos e o personagem se parece um pouco com Nhô-Quim, com o nariz em continuação com a testa. Depois, a história se torna mais aventuresca e o desenho se torna realista. Nessa segunda fase, o herói enfrenta onças, índios bravios e uma sucuri. O momento em que Zé, amarrado a uma árvore, serve como alvo para as índias treinarem sua pontaria de arco-e-flecha, é memorável e demonstra o perfeito domínio que Ângelo Agostini tinha da arte seqüencial. São cinco quadros mostrando o herói desviando-se das setas e parecemos ver seus movimentos.


Além disso, há seqüências de panorâmicas, que só seriam usadas nos quadrinhos ianques com Tarzan, na década de 20 do século XX. Outra cena mostra até um sonho, com o desenho envolvido por nuvens para demonstrar que os acontecimentos não devem ser lidos de forma literal. Em suma, Agostini antecipou muitas das técnicas que só seriam usadas pelos norte-americanos muito tempo depois. Só por isso, o álbum já vale a pena, mas quem comprá-lo vai poder ter a oportunidade também de conhecer o primeiro herói brasileiro de quadrinhos, e também a primeira heroína, a índia Inaiá. (IVAN CARLO)


Cópias imperfeitas
Impossível negar, “os comics norte-americanos impuseram ao mundo a imagem dos super-heróis, personagens quase-deuses, trajando roupas colantes coloridas e que sozinhos ou em grupo tomaram de assalto a cultura de massa mundial, tornando-se mitos modernos. O sucesso dos personagens influenciou o surgimento de cópias (im)perfeitas na produção de quadrinhos de países periféricos. No Brasil, os representantes mais significativos usam a paródia ao modelo hegemônico norte-americano como estética.”

Miríades de heróis brasileiros dos gibis (clique para aumentar)

E eis a grande questão: cópias imperfeitas do visual, dos perfis e, às vezes, até das temáticas. A propósito no meu livro sobre quadrinhos, publicado em 1993, capítulo sobre as HQs brasileiras, dedico especial atenção ao tema dos “clones”. Na página 149, escrevi que muitos heróis brasileiros não passam de meras cópias, plágios ostensivos de personagens das HQs estrangeiras. Servem de exemplos: Bola de Fogo – nome emprestado do herói americano Fireball, e visual próximo ao do Tocha Humana; Raio Negro com o visual inspirado no Ciclope dos Xmen que, por sua vez, é plágio do Cometa, de Jack Cole; Homem Pantera que tem o visual, sem tirar nem por, do Pantera Negra da Marvel.


Capitão 7, mais um herói dos quadrinhos brasileiros

Até a Velta, ícone-símbolo da luta dos autores brasileiros, possui características dominantes diferentes dos da mulher brasileira média (tem 2.20 m de altura, cabelos louros compridos até os pés). Sequer escapou da americanização do nome. Quando foi criada por Emir Ribeiro, em 1973, chamava-se Welta (com W); só posteriormente mudou para Velta (com V).



Velta, de Emir 


Sucesso relativo
Houve, sem dúvida, no passado, e existem, no presente, vilões, heróis e super-heróis brasileiros originais que tiveram algum sucesso editorial. Refiro-me ao Garra Cinzenta, de Renato Silva, sempre citado como primeira HQ nacional bem-sucedida internacionalmente; Pererê, de Ziraldo, Judoca, tentativa feita pela EBAL para criar um herói brasileiro, somados a algumas transposições feitas do rádio e da TV para os quadrinhos – Vingador Palmolive (cópia de Lone Ranger, com direito a um Tonto, Calunga, abrasileirado), Anjo, Jerônimo, Capitão Atlas, Capitão Sete, Vigilante Rodoviário alguns deles ideologicamente mais próximos de nossa cultura tupiniquim. Apesar disso, nenhum título brasileiro do GIBI, conseguiu assumir a magnitude de uma mitologia moderna (como o fez o Superman) capaz de entusiasmar o caldo de cultura pop formado pelos leitores de quadrinhos.

Garra Cinzenta, versão magistral de Luciana Leão 
Garra Cinzenta, versão original de Renato Silva, o autor 

Tirinhas
No que se refere às tiras de jornais o sucesso mostra-se mais freqüente, ainda que em nível nacional ou regional. Em nível internacional é imprescindível citar a obra de Maurício de Souza (inicialmente, tirinhas, depois comic book com o mesmo sucesso editorial), indiscutivelmente, a mais bem-sucedida em termos de popularidade e retorno financeiro.


Das tiras atuais, gosto Fala Menino de José Augusto e Xaxado de Antônio Cedraz 


O Vigilante Rodoviário, tipicamente brasileiro, foi sucesso no rádio, na TV e nos quadrinhos 
Oportunismo sazonal
Por um tempo limitado, os quadrinhos brasileiros tiveram o seu apogeu. Aproveitando a repressão norte-americana aos quadrinhos de terror, eróticos e o cancelamento de determinados títulos que deixaram de ser publicadas nos EE.UU., os quadrinhistas brasileiros retomaram as histórias e obtiveram um retorno editorial gratificante. Exemplifico as histórias de terror, de sexo e de heróis e super-heróis, tais como, Capitão Marvel, Rocky Lane, Cavaleiro Negro, dentre outros, e tiveram sucesso de vendas, por curto/longo tempo.


Xenofobia
Concordamos com o empenho de autores brasileiros de quadrinhos na defesa do mercado de trabalho. Discordamos da estratégia de luta que utiliza argumentos panfletários com conteúdos xenofóbicos e jacobinistas.





Concluindo

Apesar de serem justas as reivindicações de editores, roteiristas e artistas brasileiros pelo controle do mercado editorial de HQs, até agora muito pouco se tem conseguido.


A tentativa de se promulgar a lei protecionista dos 60% que obrigaria às empresas a preencher com 60% de quadrinhos nacionais o espaço das revistas de HQs que forem publicadas no Brasil esbarrou no princípio da liberdade de expressão. Além disso, iria se constituir numa reserva de mercado para um tipo de produto (arte e comunicação de massas) que não pode ser limitado por quaisquer restrições à liberdade de criação. Melhor seria que os autores brasileiros se aprimorassem o suficiente para produzir quadrinhos capazes de atender às necessidades do mercado consumidor, evitando assim o desinteresse do leitor e o consequente fracasso de vendas. (José Queiroz)


1. Prêmio Angelo Agostini é uma das mais tradicionais premiações de arte seqüencial realizada no Brasil. Criado e organizado pela Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo (AQC - ESP), o Prêmio tem como objetivo “o resgate e a referência aos grandes artistas do quadrinho nacional”.

P.S. Em Salvador, Bahia foi criada (sou inscrito e entusiasta) a Associação de Quadrinistas da Bahia com o objetivo de defender o mercado de trabalho de seus filiados.



Um comentário:

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